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Crônicas com Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk

04/07/2005 07:21

Grilo no quarto

Por Pedro J. Bondaczuk


O silêncio do meu quarto, da casa, do mundo, é quebrado apenas pelo insistente cri-cri de um grilo. E pela água cantando na calha, já que chove lá fora. Às vezes o ronco das crianças ou o seu ressonar podem ser ouvidos em fundo, pois é alta madrugada. Que horas? Não importa! Mas é tarde. No mais, tudo é quietude e solidão.

É a situação ideal para ler algum livro que exija concentração (como uma obra de filosofia, por exemplo, ou a de poemas de Ezra Pound). Aliás, seria, não fosse a insistente cantilena do bichinho, que dá nos nervos. Levanto, chinelo na mão, em busca do grilo. Em vão. Procuro-o em um canto, no outro, embaixo da cama, ao lado do criado-mudo, e não o encontro. Desisto de matá-lo.

Lembro-me de algumas superstições. Há muitas envolvendo essa minúscula criatura. Alguns dizem que quando um grilo canta no quarto é aviso de que alguém das nossas relações vai morrer. Bobagem. Prefiro acreditar em outra versão que garante que esse canto monótono, que penetra como uma bala em nosso ouvido e parece ampliado no tímpano, é sinal de sorte. Tomara que sim. Bem que preciso de uma certa mãozinha do imponderável, do "acaso".

A esta altura, minha concentração já foi para o espaço. O cri-cri do grilo, dizem os estudiosos, faz parte do seu ritual de acasalamento. Seria um menestrel cantando para a amada. Prefiro essa versão. É mais simpática e faz com que eu suporte a cantilena com maior paciência e até com certa cumplicidade. Sei, pelo menos, os sacrifícios e as loucuras que nós humanos fazemos para conquistar uma mulher que nos desperte os instintos e bagunce a nossa cabeça e as nossas emoções.

O inconveniente é que este grilo poderia ir cantar em outra freguesia. Por que tinha que ser exatamente em meu quarto e a esta hora, que reservo para estudo e reflexão? Seria a minha consciência? Não creio. Ultimamente ela anda em paz. Se não tenho sido um primor de santidade, também não prejudico ninguém.

Aliás, meu empenho com a profissão e com a literatura tem sido tão grande, que mesmo que quisesse ser um sujeito errado, não teria tempo para isso. Ademais, não sou Pinocchio, aquele personagem do escritor italiano Colodi, um boneco de madeira, que acabou transformado em ser humano, cuja consciência era um grilo falante.

Este que me acompanha, nesta noite silente e chuvosa, não fala. É cantante. Ou, para ser mais exato, é irritante. Lembro-me que Mário Quintana tem um poemeto a respeito em seu livro "Sapato Florido". Vou até a estante onde guardo as minhas obras preferidas, as de cabeceira, separadas da biblioteca normal, e pego o referido volume. Folheio-o a esmo e não tardo a encontrar o texto que quero. Diz: "O grilo canta escondido...e ninguém sabe de onde vem seu canto...nem de onde vem essa tristeza imensa daquele último lampião da rua".

Quintana... saudoso Quintana... Quanta falta nos faz sua postura bem-humorada face à vida e seus versos irônicos, que não conseguiam disfarçar uma profunda ternura pelas fraquezas e contradições humanas! O bichinho, como que adivinhando que o desvio da minha linha de raciocínio original estava me conduzindo para a melancolia, voltou a cantar desesperado. Parecia que iria arrebentar, como uma taça de cristal diante de uma nota aguda de algum soprano.

Agora entendo porque as pessoas dizem, quando temos em mente algum problema que nos incomoda e do qual não conseguimos nos livrar, que estamos com "grilos na cabeça". Ligo a televisão. O controle-remoto da TV tornou-se uma arma quando desejamos nos livrar de chatos, sejam eles humanos ou insetos.

Faço uma ronda pelos canais ainda abertos (três) e nenhum deles exibe alguma coisa que justifique o gasto de energia elétrica. Um passa um filme da década de 30, repetido no mínimo por cinqüenta vezes. Os outros dois apresentam programações de telemarketing, em que vendedores eletrônicos, "pastores do consumismo", tentam impingir aos incautos insones, que aceitam a sua companhia, na ausência de outra mais excitante, bugigangas perfeitamente dispensáveis.

Desligo a TV e apago a luz. Aos poucos, o cansaço do dia começa a cobrar o seu preço. O sono faz pesar minhas pálpebras, vai apagando a minha mente e ao fundo, como se fosse a minha consciência, ouço o cri-cri do grilo, que se transforma em uma deliciosa sinfonia...E apago de vez...





Jornalista, radicado em Campinas, mas nascido em Horizontina, Rio Grande do Sul. Tem carreira iniciada no rádio, em Santo André, no ABC paulista. Escritor, com dois livros publicados e detentor da cadeira de número 14 da Academia Campinense de Letras. Foi agraciado, pela sua obra jornalística, com o título de Cidadão Campineiro, em 1993. É um dos jornalistas mais veteranos ainda em atividade em Campinas. Atualmente faz trabalhos como freelancer, é cronista do PlanetaNews.com e mantém o blog pedrobondaczuk.blogspot.com. Pontepretano de coração e autêntico "rato de biblioteca". Recebeu, em julho de 2006, a Medalha Carlos Gomes, da Câmara Municipal de Campinas, por sua contribuição às artes e à cultura da cidade.

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