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Crônicas com Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk

17/04/2006 18:14

Fragilidade da memória

Por Pedro J. Bondaczuk


O poeta grego Paladas de Alexandria, que viveu no século 4 da nossa era, sentenciou, num de seus poemas: “Vim nu à terra e nu irei para baixo dela./Por que canseiras vãs se o fim é só nudez?” Mas seria realmente assim? Tudo, nossos sonhos, esforços, canseiras, desgastes e ambições se resumiriam somente a isso? Para a maioria esmagadora dos seres humanos, sim! Vários bilhões de pessoas nasceram e morreram desde que a vida surgiu neste Planeta. No entanto, há registros, lembranças ou referências de apenas alguns milhares delas.

Da esmagadora maioria, não há o mínimo vestígio da sua passagem pela existência. Nenhuma obra marcante, nenhum ato de coragem ou de covardia, de vileza ou de bondade, nada. Absolutamente nada. É como se tais homens e mulheres jamais houvessem nascido. E, no entanto, nasceram, amaram, odiaram, sofreram, tiveram alegrias e com certeza chegaram a se julgar o centro do universo.

Pobre condição humana...Todos nós somos assim. O escritor norte-americano Ambrose Bierce, no seu livro “O Dicionário do Diabo”, que é uma sucessão de definições cínicas e amargas, e no entanto verdadeiras, define vida como sendo “uma salmoura espiritual que preserva o corpo de decadência”.

Mas não é a efemeridade orgânica o fato mais preocupante. O que preocupa é a possibilidade do eterno esquecimento. Daí a necessidade que o homem tem de deixar alguma obra-prima para a posteridade. Tal legado não é uma garantia absoluta de que o indivíduo não será esquecido. Alguma eventual catástrofe – e o mundo sempre foi pródigo delas, tanto das naturais, quanto das provocadas pela insensatez humana – pode vir a soterrar por séculos, milênios, quiçá para sempre, seu legado à humanidade. Todavia, a ausência desse trabalho marcante é uma garantia do absoluto, do eterno e do inexorável esquecimento.

Os romanos tinham uma veneração toda especial pelos seus mortos. Veneravam os ancestrais desaparecidos como deuses e até erguiam altares no local mais nobre de suas casas para essa adoração. Esta, aliás, é a origem das lareiras, que não se destinavam, em absoluto, ao aquecimento das moradias, como ocorre hoje nos países frios e nem à simples decoração das residências. Era o local de culto dos entes queridos desaparecidos e sua lembrança permanecia viva através de muitas gerações. Todavia, nenhuma dessas pessoas é lembrada ou identificada hoje. Gaetan Picon escreveu que: “A obra não é eterna, mas a continuidade da criação artística, que a submete ao jogo das revivescências e das metamorfoses, é como uma miragem de eternidade”.

O homem está na dependência de forças externas cuja existência, a despeito de toda a tecnologia que desenvolveu, sequer atina. A esse propósito, o poeta Mário Quintana constatou, num texto que chamou de “Epílogo”: “Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe...Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade”.

Mas a vida não consiste só em canseiras por nada e nem termina, necessariamente, em nudez...Descobrir seu verdadeiro significado e sua finalidade são as nossas maiores tarefas, das quais não temos o direito de abrir mão, sob pena de não deixarmos o mínimo vestígio da nossa passagem pelo mundo, ao cabo de uma ou duas gerações ou, quem sabe, até menos.





Jornalista, radicado em Campinas, mas nascido em Horizontina, Rio Grande do Sul. Tem carreira iniciada no rádio, em Santo André, no ABC paulista. Escritor, com dois livros publicados e detentor da cadeira de número 14 da Academia Campinense de Letras. Foi agraciado, pela sua obra jornalística, com o título de Cidadão Campineiro, em 1993. É um dos jornalistas mais veteranos ainda em atividade em Campinas. Atualmente faz trabalhos como freelancer, é cronista do PlanetaNews.com e mantém o blog pedrobondaczuk.blogspot.com. Pontepretano de coração e autêntico "rato de biblioteca". Recebeu, em julho de 2006, a Medalha Carlos Gomes, da Câmara Municipal de Campinas, por sua contribuição às artes e à cultura da cidade.

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Comentário de Erony Marcellino em 21/04/2006 às 10:45hs. (horário de Miami)

Reservas da memória!
Fui andar hoje cedo. Comigo foram, na memória, meu pai e minha mãe. No silêncio da alameda ensolarada ouvia o som dos meus passos e a insistência do meu pensamento. Do meu pai herdei a sensibilidade. Da minha mãe herdei a coragem. Meu pai queria ser engenheiro. Se formou dentista. Sou um "tiradentes", mas construo sorrisos, dizia ele conformado. Minha mãe era forte. Queria ter tido muito dinheiro. Morreu pobre. Alto, magro, vaidoso e independente meu pai precisou amputar uma perna. A depressão apressou a passagem dele por aqui. Foi embora tão cedo. Sinto saudades das palavras sensatas. Do jeito calmo e do cheiro da água de colônia que ele passava no rosto depois de se barbear. Brincalhão, fazia piada de tudo. Numa véspera de Natal minha mãe vestiu uma roupa bonita, cuidou do cabelo, passou baton nos lábios e morreu sem sentir dor. A casa onde morávamos tinha na frente uma enorme árvore que dava sombra para a varanda onde sentávamos e sentíamos o perfume das flores que minha mãe cultivava. Máquinas pesadas derrubaram a casa e a árvore. Destruíram o jardim. Por lá hoje circulam, na larga avenida, caminhões, ônibus e carros em alta velocidade. O progresso chegou ao bairro tranquilo e integrou a cidade com o litoral. Minha memória resiste. O progresso não levará. Lembrarei deles, como faço agora. Pessoas simples que não escreveram livros, que não ergueram obras para a posteridade. Construíram para o mundo esta pessoa que sou e que gosto de ser. Sensível e forte como me ensinaram a ser. Também não deixarei registros para a humanidade quando chegar a minha vez de partir. Mas minha memória, enquanto resitir, construirá obras de arte dedicadas àquelas pessoas maravilhosas que me ensinaram a ser como sou. Recorro outra vez a Drummond e lembro seu verso:"Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!"


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