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Visão Empresarial com Luciano Salamacha

Luciano Salamacha

05/03/2007 02:00

A vida empresarial imita a política ou vice-versa?

Por Luciano Salamacha


A vida empresarial imita a política ou vice-versa?

Há alguns momentos na vida em que parece que se está vivendo uma situação muito familiar. É como se você já tivesse visto aquela cena antes, mas não lembra onde e nem quando. Essa sensação também tem acontecido no mundo empresarial, principalmente quando se analisa o noticiário sobre política.

Afinal, quem já não ouviu falar de funcionários que, em nome de uma lealdade cega à chefia, acabam por deixar de lado seus princípios para agir em nome de uma causa maior. No caso das organizações, essa causa maior costuma ser descrita de duas formas distintas. De um lado, aqueles que tentam manter-se em um determinado cargo e que utilizam o argumento que tudo que é feito é pelo bem da empresa. E, lógico, todos que quiserem ameaçá-los, deverão ser combatidos com rigor.

Ao mesmo tempo, esses funcionários têm a cara-de-pau de apoiar e proteger outros que cometeram uma falta grave e verdadeira e que correm o risco de punição. O princípio é muito simples: ajude hoje e conquiste aliados. A frase central é “ajude, porque não se sabe como será o amanhã”. Esse comportamento é, mais ou menos, como daqueles políticos que dizem que o ato de meter a mão nos cofres públicos não é nada quando comparado com a causa em que estão engajados. Mas, o outro lado é daqueles que não concordam que a empresa deve servir aos interesses pessoais de alguns.

São profissionais que lutam pela saúde financeira da organização e que se preocupam em manter um ambiente de trabalho pautado pelo respeito e pela ética. Eles agem como aqueles políticos (cada vez mais raros, é verdade) que preferem enfrentar situações difíceis, como o processo de cassação de um deputado corrupto, do que simplesmente não comparecer à votação alegando uma desculpa qualquer. Resumindo: em alguns momentos, fica difícil saber se é o mundo empresarial que está imitando a política, ou vice-versa.

Por que é difícil ver um funcionário que só pensa em si mesmo ser demitido?

Assim como acontece na política, nem sempre no meio empresarial é muito fácil responsabilizar alguém que cometeu erros, e o motivo é simples, é que tanto os políticos quanto os funcionários mal-intencionados tem uma grande habilidade de dissimular situações e de confundir quem analisa a situação. Isso quando não agem com crueldade e acabam colocando a culpa em outra pessoa inocente.

Um aspecto comum entre a política e algumas organizações é o grau de corporativismo existente. Na política há um jogo pela manutenção do poder, em que um deputado finge que não fez nada, embora ajam provas mais que suficientes sobre sua culpa, enquanto seus colegas fingem que não viram nada de errado.

Já no meio empresarial, foi isso que aconteceu com José quando descobriu que seus colegas estavam lesando a empresa quando concediam descontos acima do permitido para parentes e amigos. Indignado, primeiramente José procurou conversar com os colegas a respeito que o responderam com um agradecimento pelo alerta.

Agora ele era um inimigo conhecido de todos e que deveria ser eliminado da empresa. Começava aí um processo de intrigas e fofocas que culminaria com um pedido de demissão. José já não agüentava mais prestar esclarecimentos para a alta gestão sobre aquelas situações que não havia provocado. No dia em que saiu da empresa, na presença da chefia ainda teve que ouvir dos colegas frases do tipo: “que pena que você não vai ficar conosco José” ou “tem certeza que não podemos fazer nada para que você fique?”.

Resumindo, ser honesto é uma questão de firmeza de caráter, e infelizmente na maioria dos casos para se manter nesta condição é necessário pagar um preço muito caro, porém esse é o preço que se paga para dormir com a consciência tranqüila.

O honesto peca, muitas vezes, por falar pouco?

Basta observar um pouco o que acontece no mundo político para perceber que em muitos casos o culpado é o primeiro a gerar acusações. É aquele que grita aos quatro cantos do mundo que está sendo injustiçado, está sendo alvo de uma perseguição política, e ainda exige uma investigação rigorosa e que se dispõe a colaborar para provar sua inocência.

Entretanto, ao mesmo tempo em que pede isso, de outro lado boicota, enrola e confunde quem quer encontrar a verdade. O que ele tenta é ditar o ritmo das investigações e com isso garantir que nada seja apurado e, principalmente, que ninguém venha a ser punido.

Acontece que no meio empresarial há funcionários que fazem exatamente isso, enquanto os honestos e corretos preferem calar-se ao invés de assumir uma postura firme e correta diante da alta gestão. No mundo empresarial existem funcionários que aprontam a todo o momento. Eles não apresentam produtividade, causam problemas junto aos clientes, e ainda reclamam que não tem condições para exercer direito suas funções.

De outro lado, aqueles profissionais que literalmente carregam a empresa nas costas, deixam de manifestar a sua opinião. Eles preferem o silêncio a ter que apresentar à sua chefia quais são os verdadeiros culpados por determinada confusão na empresa.

Este é o grande problema que faz com que alguns honestos pequem por falar pouco. A omissão além de não contribuir para o processo de melhoria em uma empresa, pode provocar a impunidade e, conseqüentemente a revolta daqueles que são justos e honestos.

Por isso a recomendação de hoje na coluna Visão Empresarial é apara que você não se preocupe apenas em ser honesto, mas também em ter atitudes de honestidade em todos os momentos de sua vida.

Quem se cala, assume o ônus da generalização?

Deve-se reconhecer que trabalhar em um ambiente injusto, muitas vezes, estimula uma pessoa a ficar calada e a não assumir uma posição na empresa. Entretanto, não se pode pensar que a omissão e o silêncio não custarão um preço na carreira deste profissional.

Analise, por exemplo, o que acontece no mundo político. Há vários deputados que são acusados (e com provas mais que convincentes) de roubar o dinheiro público. Ainda assim, outros deputados que são honestos e que não partilham deste pensamento preferem ficar calados que se expor acusando o colega. Esse procedimento gera na população uma sensação que todo político não presta e que, portanto, não se deve mais confiar nesta classe. Tanto isso é verdade que hoje está emergindo no País uma campanha pelo voto nulo, como se isso fosse a solução mais recomendada.

Na verdade, essa situação também acontece quando um profissional honesto percebe que a empresa está sendo lesada por um determinado colega, mas prefere o silêncio que assumir uma posição. Nos dois casos, a generalização acaba acontecendo.

No caso da política, a população passa a acreditar que todo político é ladrão e que, portanto, não se deve confiar em ninguém, mesmo sabendo que algumas pessoas podem ser extremamente honestas. De outro lado, no meio empresarial, a alta gestão pode passar a acreditar que todos os funcionários lesam a empresa e que, portanto, não devem ser tratados com distinção.

Surge até aquele ditado que afirma que você deve confiar, desconfiando. Para se livrar do ônus da generalização, parta logo para a prática, assumindo uma posição clara na empresa. Lembre-se: é melhor ser taxado como alguém que se expõe, mas que é honesta e que tem firmeza de caráter, do que uma pessoa que sabe se calar, mas que é confundida com os desonestos que trabalham na empresa.

Por que a classe política nos decepciona tanto no Brasil?

É compreensível que muitas pessoas se sintam decepcionadas com a classe política no Brasil. Afinal, quem se contenta ao ver um processo de investigação ser levado a sério para terminar com a absolvição de um réu confesso?

Também é difícil não ficar indignado quando se analisa o volume de recursos públicos que foram carreados para campanhas eleitorais, ou seja, para o benefício único e exclusivo de um grupo político. Porém, de outro lado, cabe uma reflexão. Será que não é justamente isto que eles desejam? Que você, pessoa responsável e consciente de suas obrigações se decepcione a tal ponto que desista de ler jornais e, muito menos, que deixe de se preocupar com a roubalheira que está acontecendo cada vez de forma mais escancarada.

Acontece que se enganam aqueles que acham que a população vai ficar calada apenas assistindo tudo o que acontece de forma passiva e desinteressada. É preciso tomar uma posição e participar mais da sua comunidade para, com isso, melhorar o desempenho do nosso País.

Essa é a diferença entre ser político e ser partidário. Você não precisa se filiar a um partido, mas pelo menos, deve se preocupar com o rumo da política no Brasil.

Esse é o mesmo fenômeno que acontece em muitas empresas quando funcionários deixam que coisas erradas aconteçam sem reagir ou sequer se preocupar com as conseqüências. A alegação é que eles não têm nada a ver com a situação, uma vez que tais problemas não estão acontecendo no seu setor. Resumindo: indignação sem a devida ação é o mesmo que o silêncio daqueles que concordam com tudo. Pense nisso!

Manda quem paga, obedece quem é pago?

Em primeiro lugar, a crença do empresário de que por estar pagando, pode e deve exigir a dedicação dos seus funcionários, não significa absolutamente nada. Ou melhor, não gera resultado positivo algum.

O que se observa, normalmente, é que onde o empresário acredita que pode exigir a dedicação plena das pessoas somente pelos salários que paga, o efeito é justamente o reverso: a indiferença. Além de não conseguir o comprometimento esperado, esse gestor ainda consegue destruir a pouca dedicação que porventura possa existir na empresa.

A dica para empresários que teimam em manter esse pensamento é para que ponderem a respeito de como esse posicionamento é visto e percebido pelas pessoas que trabalham na empresa. É simples! Um funcionário que recebe um tratamento baseado no princípio “manda quem paga, obedece quem é pago” tende a se situar naquela famosa zona da normalidade.

Esse funcionário não vê motivos para se dedicar no trabalho. Ao contrário, o que ele vê são posicionamentos inquestionáveis de que o melhor é trabalhar no sistema operação padrão. Ou seja, faça tão somente o que é necessário para não ser mandado embora. Nenhuma atitude acima da condição de “operação padrão” deve ser praticada, sob pena de colocar o emprego em risco.

Afinal, em uma empresa onde a dedicação não é comum, é bem provável que o patrão estranhe quando uma pessoa efetivamente mostre dedicação. E quando um funcionário rompe a barreira da normalidade sendo mais dedicado, por exemplo, acaba sendo questionado pelo seu chefe com frases do tipo: “Por que essa dedicação não apareceu antes? No mínimo, porque você não estava interessado. Mas, e agora? Qual a segunda intenção por detrás dessa dedicação repentina?”.

Isso basta para que o funcionário perceba que não vale a pena dedicar-se numa empresa como essa. Lembre-se: O pagamento do salário gera somente um comportamento profissional normal, e não gera dedicação.




Luciano Salamacha é consultor de empresas e professor em diversos programas de graduação e pós-graduação. No Paraná, integra o corpo docente do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), ministrando aulas em Curitiba, Londrina e Ponta Grossa. Formado em Direito, com MBA em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão Industrial e mestrado em Engenharia da Produção, tem artigos científicos reconhecidos internacionalmente. Receba esta coluna por email. Visite www.salamacha.com.br

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